Wednesday, October 18, 2006

Fogo

Quando acordasse, o Diabo estaria em minha frente. Cínico, bizarro, os dentes à mostra, o sobretudo envolvendo sua forma quimérica. Mas o alento da morte bloquearia de imediato minhas emoções mundanas — entre elas o medo — e eu começaria a acompanhar o anfitrião sem esboçar reações.

Seguiríamos por corredores disformes, que pareceriam conduzir em direção ao nada. No meio do trajeto ele se viraria bruscamente para mim, dizendo: “arrepende-se de algo?”. Eu responderia que não sem pestanejar. Mas ao mesmo tempo minha mente se recusaria a recolher-se em súplica. Numa lembrança antiga, uma voz sopraria como a brisa da campina. O Diabo nada diria, talvez alheio àquele devaneio, mas meus olhos estariam imersos na visão de Beatriz, que dançava impávida ao sussuro do sol. O momento seria fluido e perpétuo, como num sonho lúcido.

Andaríamos mais, e o calor aumentava. Novamente ele se voltaria para mim e repetiria: “arrepende-se de algo?”. Dessa vez mais alto e com mais força, seu olhar ávido por me extrair confissões. Beatriz surgiria novamente. Eu a veria na relva, nós dois em meio a beijos, seu vestido branco se manchando de terra úmida. Estaríamos absortos em nosso próprio fogo, que ardia no frio do outono e singrava sob os corpos trêmulos.

Chegaríamos num ponto crítico, onde o corredor desembocaria num saguão bastante parecido com o Inferno que se costuma imaginar. Ali, a dor estaria presente em cada voz, em cada alma torturada, em cada olhar suplicante. Naquele lugar o espírito do mundo se faria louco e negro, intenso em sua própria anarquia.

Novamente ele se voltaria para mim de súbito, mas dessa vez me apontaria com seus dedos carbonizados, de forma acusativa, e usaria a voz em plenos pulmões. “Arrepende-se de algo?”.

Então ele conseguiria. Tomaria minha mente em suas mãos e escolheria o lampejo de passado que lhe tivesse mais serventia. Nesse momento, o peso se faria insuportável e eu cairia no chão de joelhos, os olhos fitando o chão de ossos à minha frente. Ali estaria Beatriz. Seu sorriso unânime voltado para mim. Suas mãos graciosas em meu rosto podre. Seu coração errôneo.

Sem pensar, eu tomaria seu pescoço e a trucidaria com mãos nuas. Ela se debateria, inutilmente, até o último instante. Seu fogo tornaria-se pânico, depois ódio, e enquanto isso o Diabo se alimentaria de cada gota de seu desespero.

Quando tudo estivesse acabado, eu ergueria a cabeça. Mas o Diabo não estaria mais ali, sádico perante a morte. Estaria me oferecendo a redenção que eu nunca esperara ter a chance de obter. Mas ao mesmo tempo, ainda estaria me observando de algum lugar além dos nossos olhos e do nosso próprio fogo, suspirando pelo nosso eterno e infalível agouro.

O pesar agora passara. A lua já estava alta, e banhava nossos corpos na luz lamentosa da manhã. Jazíamos na relva doce da colina, Beatriz e eu. O fogo, ainda entre nós, não se extinguira. E tudo conspirava contra aquele momento puro, inclusive eu mesmo.

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Sunday, August 20, 2006

Cale-se

Cale-se.
Ouça.
Ouça ao redor.
Tudo ao redor.
Tudo soa.
Crepita.
Silva.
Estala.
Tudo vive.
Tudo.
Mas tudo á sombra.
Tudo, ás escuras.
Secreto,
sob a pressa.
Sob o verso
da vida.
Inércia
No verso da pele.
Na testa.
Escondido
sob tudo
que é certo.
Com sentido,
mas vazio.
Desespero
de engolir
sem degustar
o tudo.
Dormir
sem sonho,
sem sono,
sem nada.

 

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Saturday, July 15, 2006

Um retorno

VERMELHOS E ROSAS

eu senti o calor tão certo
de um suspiro seu, tão perto
de mim a ponto de eu tocar
você se ao menos alcançar
o vazio sem fim entre a pele
entre o suor e o olhar
o nada inalcançável
cheio de tudos e sombras
cheio de gritos e
poesia gatuna

eu criei fábulas sobre tudo
e explicações sem sentido
sobre aquilo que se sente
quando se dói e se morre
denominações da vida
para tudo e nada
entre outro e um
qualquer

 

NOTURNO

a escória está caindo
e eu perdi o fôlego
no meio da neblina
brilha o vidro
como chuva
cintilante

e como cair no sono
e sonhar um bom sonho
se ao correr pra casa
plumas caem
alguns tiros
nunca erram

e o alvo profundo
na espessa linha de gelo
a ponte, a rosa
e o que há de se ver
ninguém nunca antes viu

e não há mais lar
nem destino
nem importância
só o pó
o grito
o silêncio
e a sombra

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Saturday, June 10, 2006

POEMA DE TODO DIA

Pedro viu os olhos de Felipe
E se perguntou o que era o amor

Ponderou sobre a namorada
Sobre o que diriam os pais
E o que o mundo pensaria

Mas abaixou os olhos
Virou-se e esqueceu de tudo

Mais uma alma perdida
Privada de emoções sinceras
Inerte numa vida torta
Sofrendo em silêncio
Pra sempre

 

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Monday, June 5, 2006

POÉTICA

escrever um verso simples
como a noite sem estrelas
é evocar desejos e lembranças
cravar ao som a imagem mínima
sentir que se toca a terra
e se vê o fogo arder
nas pequenas brasas do dia
em cada grão de coisa
de cada semente
floresce o poder
de fazer do pó, palavra
do nada, idéia
de tudo, a metáfora
do ser e do seria
e o escape do que
vem a ser real

 

MONET

noutro horizonte
tão laranja quanto vidro
o banho de sol

e o que alcançar
no calor da brisa branca
o que é o bastante

quanto bastará
para sorrindo partir
sem olhar pra trás

 

QUEM ME DERA

Ah, quem me dera
Ser sempre verão
Sempre primavera
Sentir a paixão
Planar de avião
Na azul litosfera
Num tom de canção
Disfarce de fera
De pluma, pavão
Desejos, leão
De sonhos, quimera
Burlar a ilusão
Do sonho que espera
Num destino cão
Num futuro vão
Ah, quem me dera!

 

FERIDA

assim é ver a ferida se abrir
e então chorar

(tudo é rude
cinza
falso
biônico)

e então chorar
nada a fazer
nem dizer

lembrar o já esquecido
sentir o insensível
mas ainda assim
dizer muito mais
do que o possivelmente dizível

 

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Sunday, May 28, 2006

FILOSOFIA

como derramar verdades
em cima de massas amorfas
sobrecarregar correntes
de pensar
enxergar além
de carrosséis de bombas
cordões de flores
sufocar na sina
na calçada vazia
desdobrar
a vida
se o que eu quero
é comê-la
vestí-la
tragá-la
possuí-la
sem dó

 

Posted by Eddino at 04:40:53 | Permalink | Comments (2)

Wednesday, May 24, 2006

SONETO DE AMOR

olhar
dizer
romper
calar

curar
sofrer
poder
chorar

tocar
fugir
piscar

sorrir
provar
trair

 

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Dois noturnos e uma paixão

JAZ

toda a quietude do mundo
aqui jaz
todo ímpeto, todo
sonho partido
toda a carne, toda
todo o mal, sabor
tão voraz

todo temor, todo
suspiro se faz
e se corta
tanta sorte, mata
todo caminho
toda luta
jaz

toda a morte que
o silêncio
traz

 

INSCAPE

Eu vi os teus olhos tão
certeiros, precisos
como um rojão

Espasmo, surpresa
o tempo simplesmente
pára

O tudo de
você em meio ao
nada de mim

 

EPITÁFIO Nº 2
A Manuel Bandeira

se por acaso
eu morrer de repente
e acharem meu corpo numa
calçada qualquer
peço apenas que avisem
todos que amo
todos que me amam
e que não chorem

pois a vida é sempre
traição, e a morte,
alumbramento

 

Posted by Eddino at 01:13:38 | Permalink | Comments (1) »

Friday, May 5, 2006

Alguns certamente vão estranhar esses poemas… digamos que trata-se de outro heterônimo. :) 

 

CRASH

mão cerrada
porrete em fúria
o painel de vidro
estilhaça

poeira de sombra ao chão
ao redor
o silêncio

o vidro não se repara
nem se remenda
ninguém cura
nada cicatriza

o porrete violento
sujo de vingança
viscosa

o porrete
o vidro
o punho
a vida

 

P&B

o melhor amigo do homem
tem olhos de homem
tem fome de homem

o homem instinto
vazio, relento
cão roído
roto

o homem osso
o homem fome
o homem
cão

 

METRÔ

ficou pra trás
a estação
o compartimento se arrasta
pelas tripas urbanas
dispara, fura a barreira dos olhos
carrega  micróbios
seres inócuos desconfiados
mentes obtusas
recostam-se nas portas
olhos perdidos, sem foco
fitam o chão trêmulo
profusão de membros se cruzam
(perna braço pé mão tronco
cabeça)
o silêncio de todo dia
apenas o garoto das balas
o ronco maquinal assombrado
o suspiro de sono e fuga
a estação
que chegou

 

EPITÁFIO

E eu caí
de uma estrela torta
num mundo de guerra
Cidade abandonada
de corações de pedra
Mas agora, partir
ainda é uma pena
Fazer o quê?

Posted by Eddino at 07:34:08 | Permalink | Comments (3)

Wednesday, April 19, 2006

Mais poesia…

TEMPESTADE

Cá eu guardo os dias tais
Que foram, não voltam mais
Nos olhos das ventanias
Margens de lagoas frias
Caem sonhos, temporais

Das lembranças penso quais
das sombras persistem mais
Enquanto chegam novos dias
Cá eu guardo…

Chegam outros carnavais
Com eles outros finais
O mundo tem suas crias
Sílabas, palavras frias
Logo não existem mais
Cá eu guardo…

 

SHADE OF LOVE

Who knows where is all the love we lost
Every single drop hides in the sand
Of the shoreline concealed under the frost
Before the oceans that we don’t understand

Who knows where is all the love we leave
Burning on the brink of passing life
Built upon the feelings one can give
Finished on the bruises of a strife

Who knows where is all the love we keep
Glowing in all colours of the light
Less it burns in death but in our sleep
Returns on dreamy beams of mystic brightness

A single shade of love can seem so stray
Though seals the reason in the gloom of day

Posted by Eddino at 04:37:19 | Permalink | Comments (4)