Wednesday, July 11, 2007

MOTO-PERPÉTUO

conforme bate solto
no perpétuo movimento
meu coração
que bate rebate a lembrança
da desilusão

faz-se o vicioso círculo de amar
sem se perceber que amar é
um açoite
quebra todo e qualquer laço
sendo que no espaço-tempo
só o que sobra
é desistir rasgar frear
extravazar o amor

noutra dimensão haverá
poesia o bastante
pra quebrar os portais
entre as estrondosas galáxias
que separam
cada um de nós

 

Posted by Eddino at 05:30:14 | Permalink | Comments (5)

Saturday, July 7, 2007

O violão

         Quando entrei no galpão enorme e escuro do luthier e olhei ao redor, não consegui segurar meu entusiasmo. No meio das bancadas e tábuas de compensado, dezenas de corpos de madeira estão pendurados pelas paredes, esperando para serem transformados em instrumentos únicos. Alguns deles jazem quietos como esculturas pós-modernas, com a fiação exposta, a madeira nua. Outros já carregam algumas identidade, praticamente acabados mas precisando de polimento ou de tarraxas novas.
         O anfitrião me entrega a embalagem velha e preta. O poliéster do lado de fora está coberto de serragem, ele o espana com uma flanela manchada e pede desculpas. O violão antigo se arrasta para fora de seu esconderijo conforme eu estendo a mão e o puxo para fora. O corpo alaranjado foi polido, mas as marcas do tempo permanecem embaixo da cera. Conforme eu deslizo os dedos sobre as cordas novas em folha, o som que lembra uma porção de cristais em queda livre irrompe da boca do violão. O corpo parece mais leve, o braço foi desempenado e repintado. Há até uma ponte nova, feita de marfim liso. Tudo ali é novo. Ou tenta parecer novo.
         Vinte e sete anos se passaram desde que meu avô lançou seu primeiro olhar sobre aquele jacarandá. Derrubou-o, trabalhou a madeira sozinho e construiu aquele mesmo violão do zero. Eu era criança e o violão já era velho. Ele sempre tocava para mim, estalando a superfície enferrujada da cordas de nylon com seus dedos cheios de calos, sempre de olho nas tarraxas pra ter certeza de que estava tudo afinado.
         Ele tocava músicas antigas, sambas e serestas que todos sabiam de cor, canções simples com poucos acordes. Toda a família se reunia ao redor, sorrindo. Ninguém ligava quando ele tomava um momento para pigarrear antes de emender o próximo número, apenas continuavam cantando. E o violão sempre ali, fiel como um cão, nunca cansado. Os dedos correndo sobre os trastes gastos, o som flutuando ao redor da casa com a brisa e alcançando a rua, e os pedestres sorrindo conforme captavam uma ou duas notas. O violão cantava em seu tom melancólico, tomando para si a doçura e simplicidade daqueles tempos.
         Meu pai apoia o pé sobre um caixote e posiciona o violão sobre o joelho. Toca um andantino grave e solene, fazendo caras engraçadas mas sem a intenção de ser engraçado. As notas são limpas, claras e precisas, e o novo som inunda o galpão conforme a serragem se ergue. Mas acaba não alcançando a avenida lotada lá fora.
Posted by Eddino at 02:38:41 | Permalink | Comments (4)