O Jornal
Eu tinha passado por ali. Talvez nesse mesmo dia, se não me falha a memória. Naquela época a rua era bem menos movimentada. Só nos horários de pico é que ela era dominada pelos operários, pelas faxineiras, pelos mendigos atrás do pão diário. A padaria da esquina, porém, era tradicional no bairro. Fora construída décadas antes, por descendentes de barões ou algo assim. Quando eu morava na região costumava frequentá-la, pelo café forte e pelos croissants. Tudo era caro, os pães doces na vitrine, voluptuosos aos olhos.
Naquele dia eu lembro, foi há alguns anos. Um garoto mulato passou atrás de mim e deu uma volta rápida, com ginga. Encontrou meus olhos com cara de choro.
“Tio, dá um trocado?”
Não dei. Era contra esmolas, elas substituiam aquilo que eu não podia lhes dar, perpetuava-lhes a deficiência. Ele não insistiu. Deslizou pelo outro lado do balcão e abordou alguns outros fregueses. Voltei ao café. Tudo era silêncio na manhã fria.
Os gritos do padeiro cortaram a calmaria. Olhei para trás, pude ver o garoto dobrando a esquina e sumindo da minha vista. Um dos funcionários mais jovens foi atrás. “Ele roubou um leite”, alguém disse.
Não quis me levantar pra ver. Mas de alguma maneira eu vi tudo. Vi os passos agéis do garoto que saltavam o concreto das calçadas, desviavam das brechas no asfalto, espantavam a tranquilidade das senhoras que passavam. O funcionário irrompeu atrás, feroz, sem hesitar. Transpunha os mesmos obstáculos, ganhava vantagem, a perseguição ia contra o vento.
Num tropeço, o garoto foi ao chão. O rosto bateu contra a calçada fria, a embalagem de cartão contendo o leite girou no ar, acertou o chão sem se abrir. O funcionário, aos berros, ergueu o garoto do chão pela gola. Alcançou o leite. Abriu a embalagem sem esforço e entornou o conteúdo sobre o garoto. Junto com o leite escorreu uma lágrima. O funcionário jovem voltou com o ar honrado de justiça feita.
Agora aquele retrato tolo em 3X4 adornava o jornal. Era o funcionário, eu sabia, não tinha mudado muito naqueles anos. Tinha morrido numa noite antes do fim do expediente, com um inexplicável tiro na cabeça, cuja origem era desconhecida. A família estava abalada, inconformada. A esposa dele era descrita como uma jovem chorosa, sofrida. Dizia no jornal que ela bradava a todos que não teria mais como alimentar a filha pequena.
O jornal me jogava na cara a realidade que eu esperava que fosse mentira, que eu não queria enxergar. Sempre fui um tolo esperançoso, eu sei, não tinha muita escolha quanto a isso. Larguei o jornal sobre a mesa e saí, para a padaria mais próxima.