Sunday, January 14, 2007

Caça & Caçador

Como que era mesmo a rua? Pedroso alguma coisa. Foi ontem. Fui num bar/boate no Itaim, no aniversário de um amigo. Minha primeira boate gay. Falando assim, pareço uma criança que foi ao primeiro parque de diversões.


 

Ficamos todos nos revezando numa mesa num canto, perto de um janelão de vidro no segundo andar. As pessoas falavam alto, a fumaça invadia os pulmões, a música irrompia sem perdão. Meus amigos iam e voltavam da pista inundada de suor, alcool, adrenalina e lasers. E eu, sem ter dormido na noite anterior, me apoiava na mesa com o braço e tentava fingir um pouco de pique dançando sentado.

 

Olhei pro lado, além do vão que dava pro andar de baixo. Numa mesa longa, na cabeceira, tinha um cara. Só um cara entre vários, whatever. De branco… tinha um ar maduro… parecia o Colin Firth. O devaneio durou mais do que eu pretendia. Ele percebeu. Olhou diretamente pra mim. Disfarcei. Mal, é claro. Voltei ao small talk com o pessoal ao redor.

 

Deu alguns instantes. Uns dois minutos arrisquei olhar de novo. Gelei. Ele e um outro cara da mesa olhavam na minha direção, e falavam alguma coisa. Eu tremi. Involuntariamente. Virei de novo pra me recompor. A cena se repetiu por algumas vezes. Eu sempre arriscava o olhar, ele sempre estava adiantado já me olhando, eu sempre gelava, eu sempre virava pra me recompor.

 

Me chamaram pra ir numa padaria próxima, beber mais barato. Aceitei, tudo era muito caro ali. Levantei devagar da mesa. Andei até o corredor que seguia o balcão até a escada e o atravessei. Não consegui evitar outro olhar. O olho dele me perseguia, agonizante. Tremi de novo. Bilhões de coisas me atravessavam a mente como relâmpagos. Pus o pé no primeiro degrau, comecei a descer lentamente. Lutei contra mim mesmo, mas olhei de novo. Na cadeira, ele dobrou-se para me olhar de novo, por entre os suportes do corrimão. O gelo voltou. Saímos. No ar mais fresco da rua eu me recompus, e fiquei maquinando sobre aquilo.

 

Voltamos. Subi e ele não estava mais ali, devia ter ido ao banheiro. Me disseram que ele tinha ido até a janela pra nos ver sair. Por algum motivo idiota eu me sentia um bicho perseguido por um predador. Sentei e tomei Cuba Libre, pra relaxar.

 

Deu um tempo e tornei a olhar para a mesa. Ele estava lá com outro. Um de preto. Um perfeito contraste.

 

No meu devaneio, eu piscava pra ele. Ele vinha até a mesa puxar papo. Iríamos ao balcão dar uns amassos à luz de laser. Dada a hora, ele iria com a turma dele e eu iria com a minha. E eu me sentiria vazio e ausente em mim mesmo. Nada pior do que se apegar demais à tudo e todos. Naquele amasso certamente passaria pela minha cabeça que talvez aquele fosse o cara pra mim. E eu me sentiria ridículo, por saber da ilusão e mesmo assim ir atrás dela.

 

O devaneio não aconteceu. Logo ele foi embora e eu chorei na mesa. Mas chorei por dentro. Ninguém percebeu. Eu me senti um trouxa. Mas logo passou. Logo iria amanhecer, e a nova oportunidade de tentar viria. Talvez eu precise passar pelos homens errados pra encontrar o homem certo.

 

E lá no Itaim, eu terminei a noite ao som de Madonna. Dançando e secando as lágrimas dentro de mim.

 

Posted by Eddino at 06:33:55 | Permalink | Comments (4)