POÉTICA
escrever um verso simples
como a noite sem estrelas
é evocar desejos e lembranças
cravar ao som a imagem mínima
sentir que se toca a terra
e se vê o fogo arder
nas pequenas brasas do dia
em cada grão de coisa
de cada semente
floresce o poder
de fazer do pó, palavra
do nada, idéia
de tudo, a metáfora
do ser e do seria
e o escape do que
vem a ser real
MONET
noutro horizonte
tão laranja quanto vidro
o banho de sol
e o que alcançar
no calor da brisa branca
o que é o bastante
quanto bastará
para sorrindo partir
sem olhar pra trás
QUEM ME DERA
Ah, quem me dera
Ser sempre verão
Sempre primavera
Sentir a paixão
Planar de avião
Na azul litosfera
Num tom de canção
Disfarce de fera
De pluma, pavão
Desejos, leão
De sonhos, quimera
Burlar a ilusão
Do sonho que espera
Num destino cão
Num futuro vão
Ah, quem me dera!
FERIDA
assim é ver a ferida se abrir
e então chorar
(tudo é rude
cinza
falso
biônico)
e então chorar
nada a fazer
nem dizer
lembrar o já esquecido
sentir o insensível
mas ainda assim
dizer muito mais
do que o possivelmente dizível