Domingo
Hoje foi um domingo de muito pesar, muita reflexão, sobriedade e tédio. O tipo de dia que eu odeio, me acorda ainda mais para a minha realidade estupidamente cruel.
Tudo por causa daquele maldito filme. Já chego ao ponto de chamá-lo de maldito porque ele me despertou algum resquício de consciência, que inexplicavelmente estava escondido aqui, o tempo todo. “Brokeback Mountain” me atingiu como nenhum outro filme, me deprimiu, me agarrou pelos ombros e berrou toda a verdade que eu nunca tinha parado pra ouvir.
Bom, voltando ao background nosso de cada dia, eu sou só mais um jovem homossexual nos seus vinte anos de reclusão num armário frio e úmido. A vida assim é triste, viver uma mentira pra todos, inclusive aqueles que estão mais próximos de você. No meu caso em particular há duas exceções na minha própria família. Uma das exceções demonstrou pura indiferença, a outra se sentiu lisonjeada e ofereceu todo o apoio possível. Espero que a horda de parentes se mantenha nessa linha.
De qualquer modo, eu sempre soube conviver com isso. Sempre pensei em postergar a minha sexualidade para uma época em que eu não precise mais dar explicações para pais ou para entes próximos, que jogam na minha cara que eu já deveria estar com uma namorada, quem sabe até pensando em casamento. Isso me deprime mas eu vou levando.
Eu soube de “Brokeback Mountain” há um ano, mais ou menos. O filme estava prestes a ser lançado lá fora, o hype já começava a se formar, dois astros de Hollywood em cenas calientes e uma história digna de tragédia grega. Aí veio a avalanche de prêmios e uma comunidade no Orkut, da qual eu me tornei o tradutor oficial de artigos e do próprio conto de Annie Proulx, que por sinal não me impactou tanto quanto o filme.
Admito, não tive coragem de ir ao cinema ver o filme. Apesar de estrear no meu aniversário, não tive coragem. Uma parte de mim ainda temia ser visto entrando num cinema pra ver um filme de “caubóis gays” (numa colocação impertinente e ridícula), e a outra parte detestava a idéia de perder momentos preciosos por ter que mandar as pessoas ao lado calar a boca. Baixei o filme pela Internet, levou uns bons dias.
Quando vi pela primeira vez, numa madrugada, tive a reação do espectador comum. Senti algum choque na famosa cena-da-barraca, senti euforia na cena do jantar de Ação de Graças, senti amargura quando surgiram as camisas. Após a “sessão” havia uma ponta de decepção no ar, algo faltando, algo que me desse uma tapa na cara e mostrasse toda a dimensão daquele amor. Mas naquele momento, o tapa não veio.
Passaram uns bons dias bastante perturbadores. Quando eu pensava que a experiência de ver o filme já tinha sido completamente esquecida, a imagem de um par de caubóis cavalgando numa montanha passava na meinha mente como um vulto. Frases inteiras passeavam nos meus neurônios. “Eu juro”, “queria saber como me livrar de você”, “se não tem jeito, deve-se aguentar”. Eu me vi absorvido por aquela história, ela me chamava de volta para a tela do computador, pedindo mais uma chance pra mostrar aquilo que faltava.
Duas semanas depois da primeira experiência, eu a repeti. Mais detalhes, mais energia, mais poder emanava daqueles dois seres humanos infelizes, Jack Twist e Ennis Del Mar. E quando os créditos subiram eu me peguei chorando como uma criança. Algum gatilho escondido havia sido finalmente apertado, o tapa na cara que faltava.
“Brokeback Mountain” discute o amor de uma maneira profunda e melancólica, mostra a dimensão dessas barreiras que bloqueiam os sentimentos. Acima de tratar de opção sexual, o filme pisa em cima desses padrões de “hetero”, “gay”, “bi”, etc. O que vale é aquele sentimento que surge entre quaisquer pessoas. E mostra a tragédia de não corresponder a isso por causa do olhar pesado da sociedade. Eu captei essa mensagem, e a espelhei na maneira que vivo agora. Eu vivo uma mentira, mantenho uma fachada, um jeito de parecer “neutro” para a sociedade. “Brokeback Mountain” jogou na minha cara que eu posso estar desperdiçando a chance de viver uma amor desses, posso estar jogando fora um sentimento maior que a própria vida, posso estar morrendo um pouco a cada. Sim, eu sei que morro por dentro, dia após dia.
Há mais ou menos três semanas, logo após a segunda “sessão”, entrei num período que não sei como chamar de outra coisa a não ser depressão profunda. Fiquei recluso, remoendo aquela idéia horrível, aquela sentença de morte. Várias vezes me vi à beira de abrir a boca e declarar aos meus pais “eu sou gay”. Mas todas elas foram interrompidas, por uma covardia que não devia existir, um medo que não devia se concretizar.
Agora eu começo a sentir uma nova presença. Talvez esperança, uma lição implícita que custa pra se instalar. Eu posso fazer a diferença na minha vida, ser eu mesmo. Sei que vou sofrer, sei que nem totod irão concordar, mas a dor da mentira é mais profunda. Tenho vinte anos, posso levar os outros que me restam a um outro nível, voltar a ser EU. Se existir um Ennis ou um Jack no meu destino, espero que nossos caminhos se cruzem, e que essa história valha a pena e não fique presa a uma montanha apenas.
Eis que Brokeback conseguiu passar sua mensagem: ame.
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