Sunday, March 12, 2006

A árvore

A faculdade onde estudo não fica longe de casa. É uma distância enigmática, porém. Muito próxima para valer uma passagem de ônibus, muito distante para caminhar. De segunda a quinta, desço de um circular e sigo uma longa avenida sob o sol do meio-dia.

Em um desses dias de aula estressante, perdi umas horas no campus para cuidar de uns assuntos burocráticos. Quando cheguei ao portão de saída já passava das duas, e eu contemplei o caminho à minha frente. A avenida sem fim reluzia, escaldante e impiedosa. O calor brotava do asfalto e formava miragens como no Saara. Nenhuma sombra à vista.

Prossegui sob o sol, já bem menos forte do que ao meio-dia, mas ainda forte o bastante para evocar aquelas incômodas gotas de suor que se espalham pelo rosto, correm pelas linhas da testa, encharcam o aro dos óculos, e descem lentamente pelo pescoço, lentas, torturantes.

Após uma centena de passos pesados, cheguei ao ponto que mais temia. Perto do final do trajeto, uma ladeira se projetava à minha frente, não muito íngreme mas longa, ladeada por uma fileira de árvores magras.

Comecei a subida angustiante. Passo a passo eu tentava me concentrar em Aristóteles e Sausurre e Henderson e Martin mas nada me desviava daquela sensação de esgotamento, como se o suor levasse embora todas as minhas forças. E o sol brilhava, gritante, os raios penentrando no couro cabeludo e no tecido das roupas. E eu, subia e cambaleava, com a determinação de um zumbi.

Perto da metade do caminho, parei lentamente ao lado de uma árvore. A copa era um pouco maior que as outras copas por perto, e o tronco era mais largo e firme. Instintivamente, sufocado pelo calor, apoiei-me com uma das mãos naquela casca áspera.

Apertei minha mão contra o tronco. O vento abafado parecia se filtrar no meio dos galhos mirrados, e ia de encontro a mim mais fresco e revigorante. Quase como se minha fadiga passasse para a árvore e descesse ao solo pelas raízes, como eletricidade num fio terra. Em retribuição, eu sentia alguma energia correndo por aqueles vasos lenhosos e passando para a minha pele, se espalhando.

Virei os olhos para a árvore e observei-a por um longo momento. De certo modo ela parecia me retribuir o olhar, aquelas grandes folhas escuras como pupilas curiosas. Sob aquela sombra e em meio ao perfume distinto da grama houve um momento bonito de apreciação mútua. Eu recobrava meu ânimo pouco a pouco e invejava a árvore que se estendia ao meu redor.

Seres engraçados, as árvores. Únicas em sua grandiosidade mas ao mesmo tempo tão invisíveis à pressa do dia-a-dia. Sempre imóveis perante o mundo, complacentes e diminutas à uma existência que desconhecem, e não precisam conhecer. Sem dúvidas, sem medo, sem identidade ou moral, sorvendo a vida do solo e do sol. Apenas sendo, sem se importar com o que realmente é ser.

O sol dera uma trégua e resolvi continuar. Esbocei um sorriso, e, em pensamento, murmurei um “obrigado”. Logo em seguida captei uma resposta, em alguma linguagem misteriosa e inexplicável. “Obrigado”.

 

Posted by Eddino in 20:08:32 | Permalink | Comments (3)