Friday, March 24, 2006

Circular

Meio-dia. Após outra manhã de aulas desgastantes eu deixei o prédio da faculdade e tomei o caminho sulcado na terra, entre árvores diversas. O céu tristonho não denunciava que viria chuva, mas deixava claro que o sol não desejava dar o ar de sua graça.

Caminhei devagar até o ponto, o pó levantava a cada passo. Me uni à massa de estudantes espalhados por ali, todos com seus estilos peculiares, suas identidades únicas. Todos fitavam atentos a mesma direção da rua, pescoços esticados como suricates no deserto.

Uma mão me tocou o ombro.

“Desculpa, cara… você sabe se já passou o Circular, linha dois?”

“Não… acabei de chegar, também tô esperando o Circular.”

Ele se afastou. Era loiro, com barba por fazer, um pouco mais baixo do que eu. Um ar despojado, aquela bolsa a tiracolo típica nos arredores, nas calçadas em meio aos prédios. Olhos azuis.

Dali a um tempo, passou o Circular. Boa parte da multidão se aglomerou em torno das portas. Me esgueirei pra dentro e achei um ponto vazio. Em pé, óbvio. Ônibus vazios ao meio-dia são realmente lendas.

Durante o curto trajeto, volta e meia eu olhava para o outro lado do ônibus. Em meio à profusão de cabeças e membros, às vezes eu enxergava aquele rosto cru e dourado. Olhava para o chão, para a janela, para ele, para a janela de novo. Não passou disso. Aqueles olhares de epifania, quase alumbramentos de Bandeira. Por um instante tudo ao redor não importa mais.

Ponto final, em muitos sentidos. Todos desceram quietos do ônibus, inclusive eu. Andei até a calçada mais lentamente que o normal, não táo lento a ponto de alguém perceber. Mas ele não desceu. Já descera em algum ponto anterior, enquanto as cabeças e membros me ludibriavam.

Ou então estava perdido em algum lapso temporal, numa época em que aquela situação pudesse passar dos olhares sem se tornar um ultraje perante todos os que me cercavam no ônibus. Ora, não apenas lá dentro.

Desse lapso eu sabia que nunca conseguiria fugir, ele sempre me perseguiria como sombra e engoliria o meu mundo pouco a pouco. Por último ele engoliria a mim. Não seria uma morte qualquer, mas a morte densa e ávida da negação, do segredo.

 

Só aí eu percebi que não havia Circular.

 

Posted by Eddino at 04:53:21 | Permalink | Comments (1) »

Monday, March 13, 2006

Domingo

     Hoje foi um domingo de muito pesar, muita reflexão, sobriedade e tédio. O tipo de dia que eu odeio, me acorda ainda mais para a minha realidade estupidamente cruel.

     Tudo por causa daquele maldito filme. Já chego ao ponto de chamá-lo de maldito porque ele me despertou algum resquício de consciência, que inexplicavelmente estava escondido aqui, o tempo todo. “Brokeback Mountain” me atingiu como nenhum outro filme, me deprimiu, me agarrou pelos ombros e berrou toda a verdade que eu nunca tinha parado pra ouvir.

     Bom, voltando ao background nosso de cada dia, eu sou só mais um jovem homossexual nos seus vinte anos de reclusão num armário frio e úmido. A vida assim é triste, viver uma mentira pra todos, inclusive aqueles que estão mais próximos de você. No meu caso em particular há duas exceções na minha própria família. Uma das exceções demonstrou pura indiferença, a outra se sentiu lisonjeada e ofereceu todo o apoio possível. Espero que a horda de parentes se mantenha nessa linha.

     De qualquer modo, eu sempre soube conviver com isso. Sempre pensei em postergar a minha sexualidade para uma época em que eu não precise mais dar explicações para pais ou para entes próximos, que jogam na minha cara que eu já deveria estar com uma namorada, quem sabe até pensando em casamento. Isso me deprime mas eu vou levando.

     Eu soube de “Brokeback Mountain” há um ano, mais ou menos. O filme estava prestes a ser lançado lá fora, o hype já começava a se formar, dois astros de Hollywood em cenas calientes e uma história digna de tragédia grega. Aí veio a avalanche de prêmios e uma comunidade no Orkut, da qual eu me tornei o tradutor oficial de artigos e do próprio conto de Annie Proulx, que por sinal não me impactou tanto quanto o filme.

     Admito, não tive coragem de ir ao cinema ver o filme. Apesar de estrear no meu aniversário, não tive coragem. Uma parte de mim ainda temia ser visto entrando num cinema pra ver um filme de “caubóis gays” (numa colocação impertinente e ridícula), e a outra parte detestava a idéia de perder momentos preciosos por ter que mandar as pessoas ao lado calar a boca. Baixei o filme pela Internet, levou uns bons dias.

     Quando vi pela primeira vez, numa madrugada, tive a reação do espectador comum. Senti algum choque na famosa cena-da-barraca, senti euforia na cena do jantar de Ação de Graças, senti amargura quando surgiram as camisas. Após a “sessão” havia uma ponta de decepção no ar, algo faltando, algo que me desse uma tapa na cara e mostrasse toda a dimensão daquele amor. Mas naquele momento, o tapa não veio.

     Passaram uns bons dias bastante perturbadores. Quando eu pensava que a experiência de ver o filme já tinha sido completamente esquecida, a imagem de um par de caubóis cavalgando numa montanha passava na meinha mente como um vulto. Frases inteiras passeavam nos meus neurônios. “Eu juro”, “queria saber como me livrar de você”, “se não tem jeito, deve-se aguentar”. Eu me vi absorvido por aquela história, ela me chamava de volta para a tela do computador, pedindo mais uma chance pra mostrar aquilo que faltava.

     Duas semanas depois da primeira experiência, eu a repeti. Mais detalhes, mais energia, mais poder emanava daqueles dois seres humanos infelizes, Jack Twist e Ennis Del Mar. E quando os créditos subiram eu me peguei chorando como uma criança. Algum gatilho escondido havia sido finalmente apertado, o tapa na cara que faltava.

     “Brokeback Mountain” discute o amor de uma maneira profunda e melancólica, mostra a dimensão dessas barreiras que bloqueiam os sentimentos. Acima de tratar de opção sexual, o filme pisa em cima desses padrões de “hetero”, “gay”, “bi”, etc. O que vale é aquele sentimento que surge entre quaisquer pessoas. E mostra a tragédia de não corresponder a isso por causa do olhar pesado da sociedade. Eu captei essa mensagem, e a espelhei na maneira que vivo agora. Eu vivo uma mentira, mantenho uma fachada, um jeito de parecer “neutro” para a sociedade. “Brokeback Mountain” jogou na minha cara que eu posso estar desperdiçando a chance de viver uma amor desses, posso estar jogando fora um sentimento maior que a própria vida, posso estar morrendo um pouco a cada. Sim, eu sei que morro por dentro, dia após dia.

     Há mais ou menos três semanas, logo após a segunda “sessão”, entrei num período que não sei como chamar de outra coisa a não ser depressão profunda. Fiquei recluso, remoendo aquela idéia horrível, aquela sentença de morte. Várias vezes me vi à beira de abrir a boca e declarar aos meus pais “eu sou gay”. Mas todas elas foram interrompidas, por uma covardia que não devia existir, um medo que não devia se concretizar.

     Agora eu começo a sentir uma nova presença. Talvez esperança, uma lição implícita que custa pra se instalar. Eu posso fazer a diferença na minha vida, ser eu mesmo. Sei que vou sofrer, sei que nem totod irão concordar, mas a dor da mentira é mais profunda. Tenho vinte anos, posso levar os outros que me restam a um outro nível, voltar a ser EU. Se existir um Ennis ou um Jack no meu destino, espero que nossos caminhos se cruzem, e que essa história valha a pena e não fique presa a uma montanha apenas.

     Eis que Brokeback conseguiu passar sua mensagem: ame.

Posted by Eddino at 02:05:33 | Permalink | Comments (5)

Sunday, March 12, 2006

A árvore

A faculdade onde estudo não fica longe de casa. É uma distância enigmática, porém. Muito próxima para valer uma passagem de ônibus, muito distante para caminhar. De segunda a quinta, desço de um circular e sigo uma longa avenida sob o sol do meio-dia.

Em um desses dias de aula estressante, perdi umas horas no campus para cuidar de uns assuntos burocráticos. Quando cheguei ao portão de saída já passava das duas, e eu contemplei o caminho à minha frente. A avenida sem fim reluzia, escaldante e impiedosa. O calor brotava do asfalto e formava miragens como no Saara. Nenhuma sombra à vista.

Prossegui sob o sol, já bem menos forte do que ao meio-dia, mas ainda forte o bastante para evocar aquelas incômodas gotas de suor que se espalham pelo rosto, correm pelas linhas da testa, encharcam o aro dos óculos, e descem lentamente pelo pescoço, lentas, torturantes.

Após uma centena de passos pesados, cheguei ao ponto que mais temia. Perto do final do trajeto, uma ladeira se projetava à minha frente, não muito íngreme mas longa, ladeada por uma fileira de árvores magras.

Comecei a subida angustiante. Passo a passo eu tentava me concentrar em Aristóteles e Sausurre e Henderson e Martin mas nada me desviava daquela sensação de esgotamento, como se o suor levasse embora todas as minhas forças. E o sol brilhava, gritante, os raios penentrando no couro cabeludo e no tecido das roupas. E eu, subia e cambaleava, com a determinação de um zumbi.

Perto da metade do caminho, parei lentamente ao lado de uma árvore. A copa era um pouco maior que as outras copas por perto, e o tronco era mais largo e firme. Instintivamente, sufocado pelo calor, apoiei-me com uma das mãos naquela casca áspera.

Apertei minha mão contra o tronco. O vento abafado parecia se filtrar no meio dos galhos mirrados, e ia de encontro a mim mais fresco e revigorante. Quase como se minha fadiga passasse para a árvore e descesse ao solo pelas raízes, como eletricidade num fio terra. Em retribuição, eu sentia alguma energia correndo por aqueles vasos lenhosos e passando para a minha pele, se espalhando.

Virei os olhos para a árvore e observei-a por um longo momento. De certo modo ela parecia me retribuir o olhar, aquelas grandes folhas escuras como pupilas curiosas. Sob aquela sombra e em meio ao perfume distinto da grama houve um momento bonito de apreciação mútua. Eu recobrava meu ânimo pouco a pouco e invejava a árvore que se estendia ao meu redor.

Seres engraçados, as árvores. Únicas em sua grandiosidade mas ao mesmo tempo tão invisíveis à pressa do dia-a-dia. Sempre imóveis perante o mundo, complacentes e diminutas à uma existência que desconhecem, e não precisam conhecer. Sem dúvidas, sem medo, sem identidade ou moral, sorvendo a vida do solo e do sol. Apenas sendo, sem se importar com o que realmente é ser.

O sol dera uma trégua e resolvi continuar. Esbocei um sorriso, e, em pensamento, murmurei um “obrigado”. Logo em seguida captei uma resposta, em alguma linguagem misteriosa e inexplicável. “Obrigado”.

 

Posted by Eddino at 20:08:32 | Permalink | Comments (3)