Saturday, September 13, 2008

Conto Urbano


            Renato subiu no ônibus na Vital Brasil. Tinha que chegar no Anhagabaú com urgência, cada minuto era precioso. Atravessou a catraca com dificuldade, abrindo caminho por entre as pessoas. Esbarrou feio numa senhora de vestido florido e pediu desculpa. Nisso o farol abriu e o ônibus arrancou, jogando meia dúzia pra trás. Posicionou-se de frente ao banco mais alto, ocupado por duas mulheres de cara amarrada. Por sorte ambas levantaram quando o ônibus se aproximou da Rebouças. No primeiro ponto metade do ônibus desceu. Renato subiu e sentou no banco alto, encostou-se na janela.

            No ponto da Schaumann, subiu um cara. Passou a catraca, sentou ao seu lado. O ônibus arrancou de novo. Ficou um silêncio enquanto as sombras das árvores passavam pelas janelas.

            Do nada o cara ao lado virou para Renato.

            — Oi.

            Um leve arrepio subiu pelas costas de Renato. Será que ele conhecia aquele cara mas não tinha percebido? Consultou a memória e percebeu que era improvável. Mas então porque ele tinha falado oi? Olhou para o cara e sorriu levemente, meio abalado, tentando mostrar uma simpatia forçada. Nisso o ônibus mergulhou num caos de trânsito e parou completamente.

            — Eu sou o Gabriel. E você?

            Então teve certeza que não conhecia aquela criatura. Não é possível. Porque abordar alguém assim num ônibus? Devia ser gay, tentando passar cantada da maneira mais descarada. Como pode, que absurdo. Sorriu pra si mesmo, inconformado.

            — Renato — disse entre os dentes.

            — Prazer.

            O silêncio tomou conta de novo.

            Depois de uns dois longos minutos, o ônibus alcançou o ponto da Rebouças e dezenas de pessoas começaram a entrar e sair. Ficou aquela fila irritante de pessoas que querem entrar mas não têm como, enquanto o motorista reza pra poder escapar dali o mais rápido possível.

            — Pra onde você vai? Disse o estranho.

            Não. Não é possível. Renato bufou, não podia crer. Ficou ofegante por um momento mas fechou os olhos e manteve o controle.

            — Vou pro Metrô.

            O outro assentiu, pensativo.

            Uma fila de ônibus laranjas se prolongava, estagnada. O ônibus mal se movia. Algumas buzinas soaram lá fora.

Do nada o estranho desandou a falar.

— Eu pensei que fosse chover hoje… aí fui na casa da Adriana pegar meu guarda-chuva. Rá. E não é que eu cheguei lá e ela tava com um cara na cama. Ahah. Eu fingi que não vi nada, não, não vi nada.

As buzinas gritavam lá fora, vindas de todas as partes, sem dó. O sol rasgava o asfalto, deixando a visão turva. Renato se sentia num transe.

— Era tudo besteira da minha cabeça, não é possível, não é possível, não, não. Por mais que a gente ache que a gente vai conseguir ser feliz vem alguém e fode com tudo.

            O onibus avançou. A porta da frente já tinha alcançado a plataforma do primeiro ponto da Consolação. Algumas pessoas subiram, cansadas.

— Claro que não vai chover, olha esse sol, esse maldito sol, e eu com essa porra desse guarda-chuva pra nada, pra nada. Nada presta, nada faz sentido, é tudo uma grande merda.

            O ônibus tornou a avançar. No que a porta traseira abriu, Renato se impulsionou no assento e jogou o corpo pra fora, caindo por sobre a grade de proteção. Ofegava. O ônibus fechou suas portas e avançou, cruzando a faixa de pedestres. Num último olhar, Renato viu o estranho no mesmo lugar, ainda balbuciando como se houvesse alguém ao seu lado. Agora chorava, chorava sem controle.

            Quando o farol tornou a fechar, Renato e a massa amorfa de pessoas cruzaram a Consolação. Todos se dividiram entre as duas calçadas da Paulista. Ele escolheu uma delas e apertou o passo, rumo ao Metrô.

De repente, numa atitude que surpreendeu até ele próprio, começou a correr. Corria em meio aos edifícios, como se fugisse de algo invisível. Em certos momentos fechava os olhos e sentia o vento no rosto. Estava livre.

Posted by Eddino in 04:00:36 | Permalink | Comments (9)

Saturday, March 22, 2008

Uma noite

Chove. Às vezes tenho vontade de parar. Cai a força.
Posted by Eddino in 16:11:33 | Permalink | Comments (5)

Tuesday, February 12, 2008

Travessia

Hoje aconteceu o tão esperado trote lá na Letras. Houve a recepção dos bixos, com muita tinta, pedágio na Vital Brasil, e bar em seguida.

E foi bem como eu esperava. Todos disputando pra ver quem bebia mais cerveja e beijava mais bixos. Eu, pra variar, bebi pouco e não beijei ninguém. Amigos meus passaram mal (por motivos alcóolicos e sentimentais) e todo aquele momento me pareceu nojento.

Não sei se é porque eu realmente acho esse tipo de atitude uma falta imensa de amor próprio, ou se no fundo eu me sinto um fracasso por não conseguir ter esse tipo de atitude, não conseguir simplesmente chegar em alguém e roubar um beijo porque no fundo eu sei que dentro de mim vai ficar aquela esperança babaca de uma coisa mais séria, essa esperança que é ridícula porque não é compartilhada com ninguém. No fundo eu acabo tendo medo de gostar de quem eu não devo por causa dos meus traumas e talvez isso tenha me criado um bloqueio.

Às vezes é tão difícil ser gay. As coisas devem ser tão mais fáceis com as outras pessoas. Porque todo o mundo permite isso, leva você direto ao caminho que você quer tomar. Os gays sempre precisam atravessar uma selva de sentimentos, de mágoas, de dúvidas.

E essa travessia está me cansando. Tem momentos em que tudo o que eu quero é abdicar de qualquer vida amorosa e social porque não consigo levá-las adiante sem me frustrar imensamente. Sem perceber que no mundo há cada vez menos amor e mais momento, que ficar fantasiando uma pessoa perfeita que vai surgir e virar meu jogo é pura tolice, pura ilusão.

E hoje, no aftermath do trote, eu olhei ao redor daquele começo de noite e vi amigos meus sentados na calçada, chorando aquilo que não conseguiam ou não podiam ter. No bar, a cantoria não parava, os olhares não paravam, o jogo não parava.

Até que eu olhei pra cima e vi um último raio de sol caindo sobre os prédios ao redor do bar, tingindo aquela coisa cinza e morta de amarelo. Me trouxe algum conforto, que vinha não sei de onde.

Me virei, me despedi, e fui embora.

“Existe é homem humano. Travessia.”

Posted by Eddino in 05:21:14 | Permalink | Comments (12)

Tuesday, August 7, 2007

Perfeição

     Acho que é bem comum as pessoas ficarem imaginando a pessoa perfeita. Conforme a gente passa de um relacionamento pra outro, a gente vai captando as qualidades que mais nos atraem a cada pessoa. Todas essas qualidades juntas, formam a pessoa que se conhece como alma gêmea, uma pessoa perfeita pra gente, com a qual a gente poderia viver pra sempre.
     Sei lá se parece meio bobo, mas ficar tentando montar esse quebra-cabeça é algo que me atrai muito. Me atrai a um ponto que volta e meia eu me pego imaginando como seria o cara perfeito. Perfeito pra mim, é claro. Vítor. É assim que eu chamo ele, sem razão aparente. Só gosto do nome.
     Ele estuda Direito, ou Economia, alguma coisa de Humanas, que nem eu. Ele se interessa bastante por Filosofia, lê bastante à respeito, mas vive falando que não vê muito futuro em fazer uma graduação nisso. Ele mora sozinho, num apartamento de dois quartos na zona Oeste. Muito simples, mas confortável o bastante pra ele. Os pais visitam ele periodicamente, moram no interior.
     Ele trabalha durante à tarde numa livraria perto do apê, é atendente da seção de Artes. Ele sempre tenta sorrir pros clientes, mesmo quando tá de ressaca ou algo do gênero. A grana não é muita, mas é o bastante pra ajudar com as despesas e com o aluguel. Às vezes a gente sai pra compensar o tempo em que a gente não se vê. Ele não fuma, mas curte uma breja. Nunca precisei carregar ele, pelo menos. Gosto quando a gente senta num bar e divaga sobre a vida, ele olhando nos meus olhos enquanto eu falo, prestando atenção.
     Nos fins de semana a gente vai em museu, teatro, cinema. De vez em quando ele encana de ir pra uma academia e me arrasta junto. Na hora eu reclamo, mas ele insiste e a gente acaba passando umas horas lá. Na saída eu fico feliz de ver como ele se preocupa. Não só comigo, mas com si mesmo também. Ele vive dizendo que tá guardando dinheiro pra uma viagem, mas não quer me dizer pra onde. Diz que é surpresa. Sempre admirei isso nele, essa persistência em relação às metas e planos. No fundo, tudo que ele quer é uma vida estável, mas que não seja banal. Como eu.
     De vez em quando a gente vai à tardinha num parque perto da minha casa. À beira de um laguinho, onde uns patos ficam passando, a gente senta num banco e fica olhando o reflexo vermelho do sol na água. Fica um silêncio enorme, enquanto a gente olha o horizonte e o horizonte olha pra gente. Depois de um bom tempo ele vira pra mim e pergunta porque que é tão difícil pra dois caras ficarem juntos. Ele sabe que eu não sei a resposta, então fico calado.
     Normalmente quando chega nesse momento eu sinto o choque da realidade com o ideal, e vejo o Vítor estourando no ar como uma bolha de sabão. Eu sei que ele não existe, mas às vezes me parece que ele só foi viajar. Sozinho. E aí eu me pergunto porque sinto tanta falta dele.

Posted by Eddino in 02:17:52 | Permalink | Comments (7)

Wednesday, July 11, 2007

MOTO-PERPÉTUO

conforme bate solto
no perpétuo movimento
meu coração
que bate rebate a lembrança
da desilusão

faz-se o vicioso círculo de amar
sem se perceber que amar é
um açoite
quebra todo e qualquer laço
sendo que no espaço-tempo
só o que sobra
é desistir rasgar frear
extravazar o amor

noutra dimensão haverá
poesia o bastante
pra quebrar os portais
entre as estrondosas galáxias
que separam
cada um de nós

 

Posted by Eddino in 05:30:14 | Permalink | Comments (5)

Saturday, July 7, 2007

O violão

         Quando entrei no galpão enorme e escuro do luthier e olhei ao redor, não consegui segurar meu entusiasmo. No meio das bancadas e tábuas de compensado, dezenas de corpos de madeira estão pendurados pelas paredes, esperando para serem transformados em instrumentos únicos. Alguns deles jazem quietos como esculturas pós-modernas, com a fiação exposta, a madeira nua. Outros já carregam algumas identidade, praticamente acabados mas precisando de polimento ou de tarraxas novas.
         O anfitrião me entrega a embalagem velha e preta. O poliéster do lado de fora está coberto de serragem, ele o espana com uma flanela manchada e pede desculpas. O violão antigo se arrasta para fora de seu esconderijo conforme eu estendo a mão e o puxo para fora. O corpo alaranjado foi polido, mas as marcas do tempo permanecem embaixo da cera. Conforme eu deslizo os dedos sobre as cordas novas em folha, o som que lembra uma porção de cristais em queda livre irrompe da boca do violão. O corpo parece mais leve, o braço foi desempenado e repintado. Há até uma ponte nova, feita de marfim liso. Tudo ali é novo. Ou tenta parecer novo.
         Vinte e sete anos se passaram desde que meu avô lançou seu primeiro olhar sobre aquele jacarandá. Derrubou-o, trabalhou a madeira sozinho e construiu aquele mesmo violão do zero. Eu era criança e o violão já era velho. Ele sempre tocava para mim, estalando a superfície enferrujada da cordas de nylon com seus dedos cheios de calos, sempre de olho nas tarraxas pra ter certeza de que estava tudo afinado.
         Ele tocava músicas antigas, sambas e serestas que todos sabiam de cor, canções simples com poucos acordes. Toda a família se reunia ao redor, sorrindo. Ninguém ligava quando ele tomava um momento para pigarrear antes de emender o próximo número, apenas continuavam cantando. E o violão sempre ali, fiel como um cão, nunca cansado. Os dedos correndo sobre os trastes gastos, o som flutuando ao redor da casa com a brisa e alcançando a rua, e os pedestres sorrindo conforme captavam uma ou duas notas. O violão cantava em seu tom melancólico, tomando para si a doçura e simplicidade daqueles tempos.
         Meu pai apoia o pé sobre um caixote e posiciona o violão sobre o joelho. Toca um andantino grave e solene, fazendo caras engraçadas mas sem a intenção de ser engraçado. As notas são limpas, claras e precisas, e o novo som inunda o galpão conforme a serragem se ergue. Mas acaba não alcançando a avenida lotada lá fora.
Posted by Eddino in 02:38:41 | Permalink | Comments (4)

Thursday, April 12, 2007

UMA HISTÓRIA QUALQUER

Há quem me diga que o amor é morte
que a dor do mundo jaz por sobre o canto
de um poeta louco que perdeu o encanto,
cujas rimas perdem-se à propria sorte.

Mas sempre há espaço pro perdão da vida,
pra nova chance que ele há de encontrar.
Mas não há cura pro que eu chamo amar,
nem razão secreta da alma sofrida.

Pois essa dor que sempre me lancina
vem desse amor que não parece amar,
que não responde e ainda me alucina.

Enquanto o tempo não fizer passar
tal dor que sinto, vou seguindo a sina,
guardando só a chance de te olhar.

 

Posted by Eddino in 02:27:22 | Permalink | Comments (8)

Saturday, April 7, 2007

DESABAFO

 

sob a sombra, vem a lua espiar a gente

embora a gente tente se espalhar na rua

cada um na sua terra, no seu mundo

sua guerra, sua sina dura, grossa

corre a água espia o pobre sob a ponte

à própria sorte triste e seca

quis a vida que essa torre cinza

projetasse o ódio sobre a grama

que um dia lhe serviu de berço

ódio contra o qual não se luta

só se escuta a razão engole o choro

e eu corro corro sem destino

sem origem nem caminho

sem futuro nem saída

sem certeza

sem amor

 

Posted by Eddino in 01:40:23 | Permalink | Comments (6)

Sunday, February 4, 2007

O Jornal

Eu tinha passado por ali. Talvez nesse mesmo dia, se não me falha a memória. Naquela época a rua era bem menos movimentada. Só nos horários de pico é que ela era dominada pelos operários, pelas faxineiras, pelos mendigos atrás do pão diário. A padaria da esquina, porém, era tradicional no bairro. Fora construída décadas antes, por descendentes de barões ou algo assim. Quando eu morava na região costumava frequentá-la, pelo café forte e pelos croissants. Tudo era caro, os pães doces na vitrine, voluptuosos aos olhos.

Naquele dia eu lembro, foi há alguns anos. Um garoto mulato passou atrás de mim e deu uma volta rápida, com ginga. Encontrou meus olhos com cara de choro.

“Tio, dá um trocado?”

Não dei. Era contra esmolas, elas substituiam aquilo que eu não podia lhes dar, perpetuava-lhes a deficiência. Ele não insistiu. Deslizou pelo outro lado do balcão e abordou alguns outros fregueses. Voltei ao café. Tudo era silêncio na manhã fria.

Os gritos do padeiro cortaram a calmaria. Olhei para trás, pude ver o garoto dobrando a esquina e sumindo da minha vista. Um dos funcionários mais jovens foi atrás. “Ele roubou um leite”, alguém disse.

Não quis me levantar pra ver. Mas de alguma maneira eu vi tudo. Vi os passos agéis do garoto que saltavam o concreto das calçadas, desviavam das brechas no asfalto, espantavam a tranquilidade das senhoras que passavam. O funcionário irrompeu atrás, feroz, sem hesitar. Transpunha os mesmos obstáculos, ganhava vantagem, a perseguição ia contra o vento.

Num tropeço, o garoto foi ao chão. O rosto bateu contra a calçada fria, a embalagem de cartão contendo o leite girou no ar, acertou o chão sem se abrir. O funcionário, aos berros, ergueu o garoto do chão pela gola. Alcançou o leite. Abriu a embalagem sem esforço e entornou o conteúdo sobre o garoto. Junto com o leite escorreu uma lágrima. O funcionário jovem voltou com o ar honrado de justiça feita.

Agora aquele retrato tolo em 3X4 adornava o jornal. Era o funcionário, eu sabia, não tinha mudado muito naqueles anos. Tinha morrido numa noite antes do fim do expediente, com um inexplicável tiro na cabeça, cuja origem era desconhecida. A família estava abalada, inconformada. A esposa dele era descrita como uma jovem chorosa, sofrida. Dizia no jornal que ela bradava a todos que não teria mais como alimentar a filha pequena.

O jornal me jogava na cara a realidade que eu esperava que fosse mentira, que eu não queria enxergar. Sempre fui um tolo esperançoso, eu sei, não tinha muita escolha quanto a isso. Larguei o jornal sobre a mesa e saí, para a padaria mais próxima.

Posted by Eddino in 22:32:03 | Permalink | Comments (7)

Sunday, January 14, 2007

Caça & Caçador

Como que era mesmo a rua? Pedroso alguma coisa. Foi ontem. Fui num bar/boate no Itaim, no aniversário de um amigo. Minha primeira boate gay. Falando assim, pareço uma criança que foi ao primeiro parque de diversões.


 

Ficamos todos nos revezando numa mesa num canto, perto de um janelão de vidro no segundo andar. As pessoas falavam alto, a fumaça invadia os pulmões, a música irrompia sem perdão. Meus amigos iam e voltavam da pista inundada de suor, alcool, adrenalina e lasers. E eu, sem ter dormido na noite anterior, me apoiava na mesa com o braço e tentava fingir um pouco de pique dançando sentado.

 

Olhei pro lado, além do vão que dava pro andar de baixo. Numa mesa longa, na cabeceira, tinha um cara. Só um cara entre vários, whatever. De branco… tinha um ar maduro… parecia o Colin Firth. O devaneio durou mais do que eu pretendia. Ele percebeu. Olhou diretamente pra mim. Disfarcei. Mal, é claro. Voltei ao small talk com o pessoal ao redor.

 

Deu alguns instantes. Uns dois minutos arrisquei olhar de novo. Gelei. Ele e um outro cara da mesa olhavam na minha direção, e falavam alguma coisa. Eu tremi. Involuntariamente. Virei de novo pra me recompor. A cena se repetiu por algumas vezes. Eu sempre arriscava o olhar, ele sempre estava adiantado já me olhando, eu sempre gelava, eu sempre virava pra me recompor.

 

Me chamaram pra ir numa padaria próxima, beber mais barato. Aceitei, tudo era muito caro ali. Levantei devagar da mesa. Andei até o corredor que seguia o balcão até a escada e o atravessei. Não consegui evitar outro olhar. O olho dele me perseguia, agonizante. Tremi de novo. Bilhões de coisas me atravessavam a mente como relâmpagos. Pus o pé no primeiro degrau, comecei a descer lentamente. Lutei contra mim mesmo, mas olhei de novo. Na cadeira, ele dobrou-se para me olhar de novo, por entre os suportes do corrimão. O gelo voltou. Saímos. No ar mais fresco da rua eu me recompus, e fiquei maquinando sobre aquilo.

 

Voltamos. Subi e ele não estava mais ali, devia ter ido ao banheiro. Me disseram que ele tinha ido até a janela pra nos ver sair. Por algum motivo idiota eu me sentia um bicho perseguido por um predador. Sentei e tomei Cuba Libre, pra relaxar.

 

Deu um tempo e tornei a olhar para a mesa. Ele estava lá com outro. Um de preto. Um perfeito contraste.

 

No meu devaneio, eu piscava pra ele. Ele vinha até a mesa puxar papo. Iríamos ao balcão dar uns amassos à luz de laser. Dada a hora, ele iria com a turma dele e eu iria com a minha. E eu me sentiria vazio e ausente em mim mesmo. Nada pior do que se apegar demais à tudo e todos. Naquele amasso certamente passaria pela minha cabeça que talvez aquele fosse o cara pra mim. E eu me sentiria ridículo, por saber da ilusão e mesmo assim ir atrás dela.

 

O devaneio não aconteceu. Logo ele foi embora e eu chorei na mesa. Mas chorei por dentro. Ninguém percebeu. Eu me senti um trouxa. Mas logo passou. Logo iria amanhecer, e a nova oportunidade de tentar viria. Talvez eu precise passar pelos homens errados pra encontrar o homem certo.

 

E lá no Itaim, eu terminei a noite ao som de Madonna. Dançando e secando as lágrimas dentro de mim.

 

Posted by Eddino in 06:33:55 | Permalink | Comments (4)