Conto Urbano
Renato subiu no ônibus na Vital Brasil. Tinha que chegar no Anhagabaú com urgência, cada minuto era precioso. Atravessou a catraca com dificuldade, abrindo caminho por entre as pessoas. Esbarrou feio numa senhora de vestido florido e pediu desculpa. Nisso o farol abriu e o ônibus arrancou, jogando meia dúzia pra trás. Posicionou-se de frente ao banco mais alto, ocupado por duas mulheres de cara amarrada. Por sorte ambas levantaram quando o ônibus se aproximou da Rebouças. No primeiro ponto metade do ônibus desceu. Renato subiu e sentou no banco alto, encostou-se na janela.
No ponto da Schaumann, subiu um cara. Passou a catraca, sentou ao seu lado. O ônibus arrancou de novo. Ficou um silêncio enquanto as sombras das árvores passavam pelas janelas.
Do nada o cara ao lado virou para Renato.
— Oi.
Um leve arrepio subiu pelas costas de Renato. Será que ele conhecia aquele cara mas não tinha percebido? Consultou a memória e percebeu que era improvável. Mas então porque ele tinha falado oi? Olhou para o cara e sorriu levemente, meio abalado, tentando mostrar uma simpatia forçada. Nisso o ônibus mergulhou num caos de trânsito e parou completamente.
— Eu sou o Gabriel. E você?
Então teve certeza que não conhecia aquela criatura. Não é possível. Porque abordar alguém assim num ônibus? Devia ser gay, tentando passar cantada da maneira mais descarada. Como pode, que absurdo. Sorriu pra si mesmo, inconformado.
— Renato — disse entre os dentes.
— Prazer.
O silêncio tomou conta de novo.
Depois de uns dois longos minutos, o ônibus alcançou o ponto da Rebouças e dezenas de pessoas começaram a entrar e sair. Ficou aquela fila irritante de pessoas que querem entrar mas não têm como, enquanto o motorista reza pra poder escapar dali o mais rápido possível.
— Pra onde você vai? Disse o estranho.
Não. Não é possível. Renato bufou, não podia crer. Ficou ofegante por um momento mas fechou os olhos e manteve o controle.
— Vou pro Metrô.
O outro assentiu, pensativo.
Uma fila de ônibus laranjas se prolongava, estagnada. O ônibus mal se movia. Algumas buzinas soaram lá fora.
Do nada o estranho desandou a falar.
— Eu pensei que fosse chover hoje… aí fui na casa da Adriana pegar meu guarda-chuva. Rá. E não é que eu cheguei lá e ela tava com um cara na cama. Ahah. Eu fingi que não vi nada, não, não vi nada.
As buzinas gritavam lá fora, vindas de todas as partes, sem dó. O sol rasgava o asfalto, deixando a visão turva. Renato se sentia num transe.
— Era tudo besteira da minha cabeça, não é possível, não é possível, não, não. Por mais que a gente ache que a gente vai conseguir ser feliz vem alguém e fode com tudo.
O onibus avançou. A porta da frente já tinha alcançado a plataforma do primeiro ponto da Consolação. Algumas pessoas subiram, cansadas.
— Claro que não vai chover, olha esse sol, esse maldito sol, e eu com essa porra desse guarda-chuva pra nada, pra nada. Nada presta, nada faz sentido, é tudo uma grande merda.
O ônibus tornou a avançar. No que a porta traseira abriu, Renato se impulsionou no assento e jogou o corpo pra fora, caindo por sobre a grade de proteção. Ofegava. O ônibus fechou suas portas e avançou, cruzando a faixa de pedestres. Num último olhar, Renato viu o estranho no mesmo lugar, ainda balbuciando como se houvesse alguém ao seu lado. Agora chorava, chorava sem controle.
Quando o farol tornou a fechar, Renato e a massa amorfa de pessoas cruzaram a Consolação. Todos se dividiram entre as duas calçadas da Paulista. Ele escolheu uma delas e apertou o passo, rumo ao Metrô.
De repente, numa atitude que surpreendeu até ele próprio, começou a correr. Corria em meio aos edifícios, como se fugisse de algo invisível. Em certos momentos fechava os olhos e sentia o vento no rosto. Estava livre.